Insônia: quando o problema não é só o sono
- José Davi Fajardo
- 4 de abr.
- 3 min de leitura
Dificuldade para pegar no sono. Acordar no meio da madrugada com a cabeça acelerada. Passar a noite inteira rolando na cama e levantar mais cansado do que deitou. Olhar para o teto às quatro da manhã com aquela sensação de que o mundo inteiro está dormindo menos você.
Se isso te parece familiar, você sabe o quanto insônia é mais do que simplesmente não dormir bem. Ela está presente nos seus dias, na sua disposição, na sua paciência, na sua capacidade de pensar com clareza. Um sono ruim não fica contido na noite.
O que é insônia, de fato
Insônia é a dificuldade persistente de iniciar ou manter o sono, ou de ter um sono que realmente descanse, mesmo quando a pessoa tem tempo e condições adequadas para dormir.
Ela pode se apresentar de formas diferentes. Tem quem demore horas para conseguir dormir. Tem quem durma mas acorde várias vezes durante a noite. Tem quem acorde muito cedo, antes do horário desejado, sem conseguir voltar a dormir. E tem quem passe a noite inteira num sono tão leve e agitado que de manhã mal parece ter descansado. Muitas vezes, essas manifestações ocorrem ao mesmo tempo.
O que une todas essas formas é o impacto no dia seguinte: cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração, sensação de não estar funcionando bem.
Insônia nem sempre é o problema principal
Esse é um ponto que faz muita diferença no tratamento e que nem sempre aparece nas conversas sobre o assunto.
Insônia pode ser primária, ou seja, o sono em si é o problema central. Mas com muita frequência ela é secundária, um sintoma de outra coisa que está acontecendo. E essa outra coisa, na maioria das vezes, é um transtorno de saúde mental.
Ansiedade e depressão são causas muito comuns de insônia. E o raciocínio faz sentido quando você pensa bem: uma mente que não desliga, cheia de preocupações e pensamentos acelerados, não tem as condições internas para entrar num estado de repouso. Da mesma forma, a depressão altera profundamente os ritmos do organismo, incluindo o ciclo do sono, e pode ter a insônia como um sintoma.
O problema é que muita gente trata a insônia como se fosse o problema principal, toma remédio para dormir, melhora um pouco, piora de novo, e fica nesse ciclo sem nunca chegar na raiz do que está acontecendo.
Por que isso importa na prática
Imagine uma pessoa que chega ao consultório dizendo que não consegue dormir há meses. Ela demora a pegar no sono todo dia. Acorda de madrugada com a cabeça já disparada com preocupações sobre o trabalho, a família, as contas, e não consegue voltar a dormir. O dia começa pesado, irritado, sem energia.
Se eu tratar apenas o sono, posso até ajudar um pouco no curto prazo. Mas se por trás disso existe um transtorno de ansiedade que nunca foi tratado, o sono não vai melhorar de forma duradoura. O que precisa ser tratado é a ansiedade.
É por isso que uma avaliação psiquiátrica da insônia não olha só para o sono. Ela olha para a pessoa inteira.
Quando a insônia merece atenção especializada
Não é todo sono ruim que precisa de psiquiatra. Uma noite difícil antes de uma situação estressante, uma fase de adaptação a uma mudança grande na vida, uma semana mais agitada. Isso faz parte.
O sinal de alerta aparece quando a insônia:
Persiste por semanas ou meses, sem melhora clara
Está afetando o funcionamento no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos
Vem acompanhada de outros sintomas, como ansiedade excessiva, tristeza, irritabilidade ou falta de energia durante o dia
Não melhora com mudanças básicas de hábito
Nesses casos, vale muito mais do que uma investigação do sono. Vale entender o que está por trás.
O sono é um espelho
Não gosto de dizer que insônia é "só" coisa da cabeça, porque isso minimiza o quanto ela é real e o quanto ela afeta a vida. Mas o sono responde muito ao que está acontecendo internamente com a pessoa. Quando algo não vai bem na saúde mental, o sono costuma ser um dos primeiros lugares onde isso aparece.
Prestar atenção nisso não é exagero. É cuidado.
Se você chegou até o final desse texto e se reconheceu em alguma parte dele, isso é um bom começo. Quando sentir que é hora de conversar, ficarei feliz em te ouvir.
José Davi Fajardo
Médico Psiquiatra
CRM-RJ 52-118854-2 | RQE 55541

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