Ansiedade: quando o nervosismo deixa de ser normal e vira um problema de saúde
- José Davi Fajardo
- 4 de abr.
- 3 min de leitura
Todo mundo sente ansiedade. Antes de uma apresentação importante, numa situação de incerteza, diante de uma decisão difícil. Essa ansiedade faz parte da vida e, em doses certas, até ajuda. Ela nos prepara, nos mantém alertas, nos faz agir.
O problema é quando ela deixa de ser uma resposta proporcional ao que está acontecendo e passa a ser um estado mais intenso e permanente. Quando a cabeça não desliga mesmo sem um motivo claro. Quando o corpo está sempre tenso, o sono nunca é tranquilo e a sensação de que algo ruim vai acontecer não vai embora.
Aí não estamos mais falando de nervosismo. Estamos falando de um transtorno que merece atenção e cuidado.
Como a ansiedade patológica se parece no dia a dia
Uma das coisas que mais atrasa o diagnóstico é que a ansiedade se disfarça bem. A pessoa continua funcionando, continua trabalhando, continua dando conta das obrigações. Por fora, tudo parece razoável. Por dentro, é outro cenário.
É a pessoa que acorda já pensando no que pode dar errado no dia. Que revisita conversas e situações repetidamente, procurando o que poderia ter feito diferente. Que sente uma tensão física constante no corpo, como se estivesse sempre pronta para reagir a algo que nunca chega. Que tem dificuldade para relaxar de verdade, mesmo nas horas de lazer. Que pensa tanto, e às vezes de forma tão acelerada, que começa a notar prejuízos na vida social e de trabalho. Que começa a perceber prejuízos na atenção, no foco, na concentração, e até mesmo na memória.
É a pessoa que os outros às vezes chamam de "perfeccionista" ou "muito responsável" sem perceber que por trás disso existe um sofrimento real.
O corpo também sente
Ansiedade não é só pensamento. Ela tem endereço no corpo.
Tensão muscular, dores de cabeça frequentes, sensação de aperto no peito, coração acelerado, falta de ar, formigamentos, problemas gastrointestinais. Muita gente passa por uma série de exames clínicos tentando entender essas queixas físicas antes de chegar à conclusão de que a origem é emocional.
E quando chega a essa conclusão, às vezes ainda não sabe para onde ir.
Ansiedade tem vários rostos
Existe mais de um tipo de transtorno de ansiedade, e eles se manifestam de formas diferentes.
O transtorno de ansiedade generalizada é o mais comum: uma preocupação excessiva e persistente com diversas áreas da vida, difícil de controlar, que não para mesmo quando a situação não justifica.
O transtorno do pânico é marcado por crises intensas e súbitas, com sintomas físicos que muitas vezes levam a pessoa ao pronto-socorro achando que está tendo um infarto.
O transtorno de ansiedade social (fobia social) envolve um medo intenso de situações em que a pessoa pode ser observada ou julgada, o que vai muito além da timidez.
Existem ainda as fobias específicas e outros quadros que se encaixam dentro do espectro ansioso. O ponto comum entre todos eles é que causam sofrimento real e limitam a vida de formas concretas.
Quando procurar um psiquiatra para ansiedade
Não existe uma régua exata, mas alguns sinais merecem atenção:
A ansiedade está presente na maior parte dos dias, não só em momentos pontuais. Ela está interferindo no trabalho, nos relacionamentos, no sono ou na qualidade de vida de forma geral. Você já tentou lidar com isso sozinho por um tempo e sente que não está conseguindo. Ou simplesmente sente que não quer mais viver assim.
Se você se reconhece em algum desses pontos, uma avaliação psiquiátrica pode fazer muita diferença. Não para receber um rótulo ou necessariamente uma medicação, mas para entender o que está acontecendo e descobrir qual o melhor caminho para o seu caso específico.
Como funciona o tratamento
O tratamento da ansiedade pode envolver psicoterapia, medicação ou a combinação das duas abordagens, dependendo do quadro e da pessoa. Mudança dos hábitos de vida, a prática de exercícios físicos devidamente orientada por profissional qualificado e a higiene do sono (técnicas e orientações para melhorar a qualidade do sono) também contribuem muito para a melhora. Não existe uma fórmula única.
O que existe é uma avaliação cuidadosa, uma escuta de verdade e um plano construído junto com o paciente. Em muitos casos, o simples fato de entender o que está acontecendo já traz um alívio que a pessoa não esperava encontrar.
Se você chegou até o final desse texto e se reconheceu em alguma parte dele, isso é um bom começo. Quando sentir que é hora de conversar, ficarei feliz em te ouvir.
José Davi Fajardo
Médico Psiquiatra
CRM-RJ 52-118854-2 | RQE 55541

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